... deliciava-se a escrevinhar histórias por encomenda (interna, externa ou extraterrena)

sexta-feira, 16 de março de 2007

Inauguração

Este texto foi escrito de um sopro, por encomenda externa, sensivelmente há 17 meses atrás...

Copo’s Chronics

A Ana não é alta nem baixa. Afirmo isto porque quando me pega e me leva aos lábios fico a uma altura média em relação à parede, não sendo ela, por isso, gigante ou anã. Uma Portuguesita mediana. Acha-se muito gorda e daí a encher-me tantas vezes de iogurtes líquidos light. É sardenta (no início pensava que estava sujo, mas falando com os outros copos, percebi que eram dela e não minhas as pintinhas que julgava conspurcar o meu vidro).
Mas sei pouco sobre ela. Sei que mudou de casa há pouco tempo e... de vida, acho eu. É tudo novo para a Ana. Há dias em que chega a casa feliz e nesses dias, seja com iogurte líquido ou, mais chique, com um bom vinho tinto, toca-me com as suas mãos cuidadosas e lábios brilhantes e penso eu, que pensa. Reflecte... Os olhos estão sempre bem abertos, a dançar, apesar de ter o rosto sereno. E sorri. Sorri muitas vezes.
Vive sozinha e chega quase todos os dias tarde. Tem andado a dormir pouco, oiço-a a regressar a casa às quinhentas, vinda de um dos variados afazeres em que se envolve, ou de grandes jantares onde, provavelmente, se envolve com outros copos que não eu... (um copo tem de estar preparado para tudo, mas não sei se estou preparado para a Ana). Vive agora com urgência. Urgência de tudo, de sentires, de alegrias, prazeres. Já a senti muito triste e perdida. É a primeira vez que vive só e creio que sente um misto de encantamento e medo, recheado de pingos de solidão.
Acho que está apaixonada, mas não sei se é por alguém ou se é porque acordou de uma sonolência apática e agora está a descobrir e maravilhar-se com o novo velho mundo reencontrado...
Sei que tem muitos amigos mas até hoje conheci poucos. Queixa-se que a sua casa está em desordem e é pequena e por isso não pode trazer ninguém para cá. Confesso que não acredito muito nesta sua desculpa. Penso que, na fase actual, a Ana quer deliciar-se sozinha com o seu espaço. Acho que, após o período de turbilhão emocional pelo qual passou (no qual eu rezava para que ela não me pegasse e deixasse cair, tal era a ansiedade que emanava), está agora a redescobrir-se como pessoa. Como a Ana que teve um passado recente que foi fantástico até deixar de ser bom e que tomou a decisão certa para poder continuar bem o seu futuro... É claro que já a vi agora, apesar de aparentemente contente, um bocadinho chorosa, mas também aprendi a acreditar nela. Num dia, numa hora, num momento, vai perceber e sentir o que realmente deseja para a sua vida. Espero que me surpreenda.
Nem baixa nem alta, mas em mudança. Se a mutação emocional se estender à parte física, estou certo que vai crescer uns cinco centímetros.

Assinado: o copo da Ana

5 comentários:

Madalena disse...

Perspicaz, o copo da Ana. Ele não sabe, mas fez-me lembrar Fernando Pessoa: "Tenho em mim todos os sonhos do mundo". E ainda bem.

Sofia disse...

Muito bem, senhorita Anne Marie !!
Tem mesmo muita habilidade para a escrita, espero um dia poder comparecer na sua noite de autógrafos !
E que a dona do copo continue crescento e proporcionando aos amigos momentos tão prazerosos ao ler a sua escrita.
Abraços,

DIV de divertida disse...

Essa analogia ao copo tem alguma coisa a ver comigo?! ;)
Se quiseres arranja-se lá uma caminha!
Então bons augúrios para esta nova casa!
beijoquinhas

Anónimo disse...

diz-se que os copos sabem os segredos...

alguém+ neste mar d gente... disse...

oh k giro....
olha qt a escocia, nc la fui. mas ontem acordei c a sensaçao k deveria! e ag kero mt ir. cm um xamamento ehe. s tens la uma amiga força! k sorte